"Cada objecto costuma transformar-se, em nós, segundo as imagens que evoca e reúne, por assim dizer, em seu redor. É claro que um objecto também pode
agradar por si mesmo, pela diversidade das sensações
agradáveis que suscita em nós numa percepção
harmoniosa; mas bem mais frequentemente, o
prazer que um objecto nos dá não se encontra no objecto em si mesmo.
A fantasia embeleza-o, cingindo-o e quase projectando nele imagens que nos são
queridas. Nem nós o percepcionamos já tal qual como ele é, mas quase animado pelas imagens que suscita em nós ou que os nossos hábitos lhe associam. No objecto, em suma, nós
amamos aquilo que nele projectamos de nosso, o
acordo, a
harmonia que estabelecemos entre nós e ele, a
alma que ele adquire só para nós e que é formada pelas nossas
recordações."
Pirandello
"Ele foi Mattia Pascal"
Engraçado que, não deixando de concordar com o autor, sinto (muito, mas muito) mais vezes precisamente o
oposto, ou:
Cada objecto costuma transformar-se, em nós, segundo as imagens que evoca e reúne, por assim dizer, em seu redor. É claro que um objecto também pode
desagradar por si mesmo, pela diversidade de sensações
desagradáveis que suscita em nós uma percepção
antipática; mas bem mais frequentemente,
a repulsa que um objecto nos sugere não se encontra no objecto em si mesmo.
As recordações distorcem-no, cingindo-o e quase projectando nele imagens que nos são
avessas. Nem nós o percepcionamos já tal qual como ele é, mas quase animado pelas imagens que suscita em nós ou que os nosso hábitos lhe associam. No objecto, em suma, nós
rejeitamos aquilo que nele projectamos de nosso, e
detestamos a ligação
que estabelecemos entre nós e ele,
o fantasma em que ele se tornou só para nós e que é formado pelas nossas (
más) recordações.